24 de maio de 2018

Os bastidores de uma oposição esvaziada por Carlos Mazza


Adversários ferrenhos por mais de um ano, Cid Gomes (PDT) e Domingos Filho (PSD) deixaram as armas de lado para reencontro de “trégua” na manhã do último domingo. Em reunião rápida no apartamento do empresário Chiquinho Feitosa (DEM), na avenida Beira Mar, o cessar-fogo foi selado: colocariam fim à rixa em prol da reeleição de Camilo Santana (PT).


O reencontro, regado apenas a poucos goles de água de coco, culminaria na debandada do PSD para o Governo e isolamento quase total do PSDB de Tasso Jereissati na oposição. O senador, que tem Chiquinho Feitosa como suplente, só soube da decisão ao meio-dia da segunda-feira — horas antes de lançar o general Guilherme Theophilo (PSDB) ao Governo.

“Na minha vida política desde 1986, nunca estive tão só”, reagiu, em tom de desabafo, o líder tucano. A confissão não vem de graça: apenas de um ano para cá, pelo menos cinco partidos trocaram a oposição pela base aliada do governo. Sem o PSD de Domingos, o bloco oposicionista ficou hoje apenas com o PSDB e o Pros, antigo partido dos Ferreira Gomes.

Apesar da surpresa de Tasso, negociações entre Chiquinho e Domingos ocorrem desde o fim de 2017, após o empresário do DEM romper com o deputado Audic Mota (PSB) em Tauá, reduto eleitoral dos três. Escolhido para “herdar” capital político de Feitosa, o advogado Caio Rocha desistiu de disputar eleição, abrindo caminho para aliança com Domingos.

Pesou a questão familiar: a filha de Chiquinho Feitosa, Lívia, é casada com o deputado federal Domingos Neto (PSD), filho de Domingos Filho. Além disso, o vice-prefeito de Tauá, Fred Rego (DEM), é aliado do empresário e sobrinho de outra liderança do DEM cearense, o ex-deputado Idemar Citó. Já o atual prefeito do Município, Carlos Windson (PR), é primo de Audic Mota.

Com a reviravolta em Tauá, Chiquinho Feitosa procurou o ex-governador Cid Gomes (PDT) para comunicar a aliança local com Domingos, que havia rompido com Camilo Santana (PT) após eleição da Mesa Diretora da Assembleia no fim de 2016. Com surpresa, recebeu não só a aprovação de Cid, como aceno para reaproximação dos grupos na base.

O primeiro encontro entre Domingos e Cid ocorreu em 11 de maio, às vésperas de uma viagem turística do líder do PSD a Londres. Ele negociou reaproximação em troca de apoio da base à reeleição do filho na Câmara e eleição da esposa, Patrícia Aguiar, na Assembleia.

Paralelamente aos acenos entre Domingos e Cid, o deputado Genecias Noronha (SD) demonstrava insatisfação com a condução de Tasso nas articulações da oposição para a eleição deste ano. Para o parlamentar, o bloco precisaria de uma candidatura forte como a de Tasso ou Capitão Wagner (Pros) ao Governo, o que foi sempre recebido com resistência pelos dois.

Pesou ainda a resistência de prefeitos ligados a Genecias, que defendiam a recomposição com o Governo para evitar tensões nas administrações locais. De 16 gestores “apadrinhados” pelo líder do SD, pelo menos nove defendiam que o partido aderisse ao Governo do Estado.

Quem acabou fazendo a ponte entre o SD e a base foi o secretário Nelson Martins (PT), que negociou palanques para Genecias à Câmara Federal e para a esposa Aderlânia Noronha e o hoje vereador de Fortaleza, Odécio Carneiro, à Assembleia. Eunício Oliveira (MDB), que já havia trazido o PSB e PR para a base, também articulou a adesão.

Publicado originalmente no portal O Povo Online